sexta-feira, 26 de março de 2010

CLUBÍSTICO x TORNEÍSTICO

Está difícil de assistir ao futebol na TV aberta. Os jogos a serem mostrados são escolhidos antes dos torneios começarem, para distribuir de forma justa as transmissões de todos os grandes. E assim a TV perde os melhores espetáculos, por ignorar o fato de que é o campeonato (e suas circunstâncias) que deveria definir qual jogo o povo deve assistir.

Então o Santástico, sensação do país, fica escondido nas noites de quinta-feira do SporTv. E o que se diz nos botecos, nas esquinas, é que o futebol brasileiro vai de mal à pior.

A Globo insiste no modelo puramente “clubístico”, digo, transmite jogos como se fossem um produto exclusivo para aqueles que se dizem torcedores daquele time específico. A Europa apostou no modelo “torneístico”, ou seja, fez a aposta de que o público em geral acompanhará o torneio que está sendo disputado, engrandecendo os campeonatos ao invés de colocar todo o foco nos clubes.

Daria certo no Brasil? Ninguém sabe. Nem se sim, nem se não. Mas eu acho que sim. Veja o aumento das audiências televisivas dos jogos de bola desde que o campeonato brasileiro tomou o formato de pontos corridos, e assim se manteve por anos consecutivos. A audiência aumenta porque o campeonato ganha importância. O espectador dá valor ao que está sendo disputado, e não só a quem está disputando. Se não fosse assim, jogos de basquete ou volei entre Flamengo e Vasco dariam audiência parecida com a do futebol.

Mas para este modelo vingar de vez é preciso que as emissoras (leia-se Globo) passem a escolher melhor quais os espetáculos que serão por ela exibidos. É comum, infelizmente, termos o “jogo do ano” (e são vários por ano) sem televisão aberta mostrando. Um bom exemplo é a distribuição dos clássicos. Gre-nal, Fla-Flu,San-São, Atle-tiba, sempre ocorrem ao mesmo tempo, na mesma rodada. Porque eles acham que eu, por ser de São Paulo, não quero ver um Cruzeiro x Atlético? Acho que eles acabam esvaziando a competição, ao dar mais valor para o jogo local do que para aquele que é realmente relevante no contexto do campeonato.

Em tempo: graças a Deus, neste domingo, só há um jogo marcado para as 16:00. O povo verá sim o encontro da (falta de) fome com a (falta de) vontade de comer, Corinthians 100 anos e 100 futebol algum contra o modorrento santo do pau oco, o meu São Paulo.

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segunda-feira, 22 de março de 2010

PERSONAGEM DO DOMINGO: SAULO. QUEM?

Amigos, vendo e revendo os melhores lances da goleada - mais uma - do Santos por 9 a 1 sobre o Ituano, no Pacaembu, percebi que o personagem deste domingo futebolístico foi o goleiro do Ituano, o pobre coitado do Saulo. Segundo complexos calculos matemáticos algoritmicos, 63,1% das pessoas no país somente ficaram sabendo que o Ituano tomou nove gols do Santos, sem vê-los nem em videotape, e concluiram que, se o time do interior tinha um goleiro em campo, este não chegou a conferir a cor da pelota. Outros 33,8% assistiram "somente" aos gols do jogo, os 10, e concluiram que o goleiro do Ituano é um verdadeiro frangueiro ao vê-lo aceitando, por debaixo de si, um chute fácil do santista Zé Eduardo e, como se não lhe bastassem as penas, ficou ainda com um cartão vermelho por ter feito o pênalti que legou ao peixe o nono tento.

Então 96,9% do Brasil concluem uníssonos: o Santos é demais, mas o goleiro do Ituano é um trapalhão.

Porém só 3,1% dos brasileiros conhece a verdade. O fato é que Saulo fazia ontem uma grande partida, com pelo menos 3 defesas milagrosas no primeiro tempo. Fosse o Santos um time ordinário, comum, desses que param de jogar depois do terceiro gol, Saulo receberia um motorádio após o match (para os mais novos, este foi por muito tempo um símbolo do melhor jogador em campo).

Repito: o primeiro tempo terminou 4 a 1, graças a Saulo. Sem ele é possível que os 9 tivessem sido anotados ainda na primeira etapa. Aí vem o segundo tempo e os meninos da vila resolvem começar tudo de novo como se estivesse zero a zero, sem Robinho e sem Neymar mas com P.H. Ganso, o PhD em futebol.
Ganso é gênio. Exagero? Quantas vezes viu alguém ganhar por 9? E por 10? E as duas coisas em uma semana?!?

Pobre Saulo. Um bom goleiro, em uma noite tecnicamente inspirada, e vítima de uma esquadra implacavelmente irresponsável. Onde já se viu voltar para o segundo tempo daquele jeito? Ganhando por 4 a 1, pega leve, diminui, se poupe para o próximo jogo difícil contra o bom Botafogo de Ribeirão. Mas a irresponsabilidade da adolescência é ininfreável. Para todo jovem o mundo acaba amanhã. Por mais que Saulo se esforçasse, eles queriam mais e mais, e no final ainda mais. Não há homem que aguente tanta teimosia. Saulo foi se irritando, com o time adversário e também com o seu próprio, que corria em vão atrás de uma bola que parecia decidida em seu destino, jogada após jogada, drible após drible.

Comemoração "Estátua da Liberdade", alusão ao amistoso feito em Nova Yorque.

E entra bola de cabeça, de pé direito, de pé esquerdo, de perto, de longe, de falta, de tudo quanto é jeito. O goleiro sente uma humilhação profunda, uma impotência quase sexual. Um bando de moleques acaba de roubar-lhe a hombridade, impunemente, como que brincando de expô-lo ao ridículo. A técnica e a concentração do goleiro, à esta altura, foram pro espaço. E depois de outra tabelinha estonteante com P.H. Ganso, Zé Eduardo arrisca de fora e o chute sai mascado, fraco e rasteiro, no meio do gol. Mas ali debaixo dos paus não há mais o goleiro do primeiro tempo. No primeiro tempo havia ali, usando as luvas ituanas, um homem forte e confiante pronto para desenvolver o seu trabalho de forma precisa, como o fez. Mas agora já não o havia mais. O que havia agora era um ser desnudo, abalado, extorquido de toda sua segurança e virilidade. Se o futebol já é um jogo mental, de estado de espírito, o ofício do guarda redes é o mais psicológico de todos. Tanto é assim que 10 entre 10 grandes goleiros ostentam uma impáfia ímpar como o numeral que carregam às costas. E enquanto assistia a viagem da bola despretensiosa de Zé Eduardo em sua direção, o arqueiro Saulo era um poço de humildade, quase uma madre Teresa. Seu olhar expressava o susto de uma freira em um prostíbulo. A impáfia, o peito estufado que um grande goleiro deve sempre portar, ficaram no vestiário. E com as mãos leves e o movimento suave de um humilde pedinte, Saulo permitiu que a bola transpassasse-lhe os braços com uma fluência de manteiga, e terminasse sua lenta trajetória além da linha fatal e sem mal chegar às redes. Saulo só queria ser invisível, e o foi, até para a bola. Apequenou-se tanto o pobre o homem que sumiu. E depois ainda, no final, viu-se em completo desespero ao fazer pênalti e ser expulso, para completar a sua degradante noite.

Um último exemplo da irresponsabilidade santista, e de como jogam sempre como se fosse o último jogo de suas vidas: Wesley foi expulso ao receber o segundo amarelo, em lance duro no meio de campo, com o placar já em 9 a 1. O ala/meia ficará de fora do importante encontro contra o Botafogo, confronto direto por vaga no G4. Também não precisa tanto.

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domingo, 21 de março de 2010

NEYMAR: ATÉ "ENTENDIDOS" JÁ SE CURVAM A ELE

É comum que nós exaltemos uma novidade, uma promessa de craque, mais do que o bom senso pressupõe. Mas quando vemos os chamados "entendidos", aqueles comentaristas mais frios e duros, curvando-se diante de um menino de 17 anos, é porque a coisa é séria mesmo. Neymar corre o risco de tornar-se o maior futebolista deste século, no mundo. Ouso dizer que talvez estejamos diante do maior nome da Copa do Mundo de 2014, a ser realizada aqui em relvas tupiniquins.

Neymar "carrega" o peso de Pelé: a responsabilidade de suceder o Rei.

Leia abaixo a coluna de Mauro Cezar Pereira, comentarista da ESPN, um dos grandes "entendidos" da TV:

Sim, os grandes jogos do garoto Neymar em 2010 foram, em sua maioria, diante de adversários frágeis, no campeonato paulista e principalmente nos estágios iniciais da Copa do Brasil. Também é fato que nos clássicos o menino esteve bem. De uma maneira, ou de outra, em nenhum deles saiu de campo sem ser notado, sem virar assunto após as partidas.


Contra o São Paulo, ignorou Rogério Ceni ao bater pênalti com paradinha. Sem tal artifício, desperdiçou penalidade diante do Corinthians, mas reagiu e foi decisivo no triunfo santista. Até contra o Palmeiras, em sua pior aparição diante dos rivais, foi expulso mas mostrou que embora imaturo para certas situações, passa longe de ser um pipoqueiro.

O que Neymar faz vai muito além das pedaladas inócuas que não saem do lugar. Incisivo, vertical, objetivo, dribla numa só direção, para a frente, rumo ao gol. Contra equipes frágeis o time mais poderoso tem obrigação de vencer, mas o êxito pode ser construído de diferentes formas. E o talentoso atacante faz tudo com facilidade que impressiona.

O Santos tem aniquilado essas equipes e Neymar ignora os adversários, passa pelos marcadores como se não existissem, que o diga o pobre zagueiro Raul, do Remo, a vítima mais recente. No lance do segundo gol nos 4 a 0 em Belém, o santista sinalizou que passaria pela esquerda e por ali entrou na área com absurda facilidade. Então rolou para André.

O início de Neymar é superior ao de Robinho. Se ele ganhará títulos importantes rapidamente, como aconteceu com o jogador emprestado pelo Manchester City em 2002, é outra questão. Individualmente a nova revelação santista dá claros sinais de que será melhor ainda, um jogador diferente, especial, daqueles que aparecem raramente.

Sempre achei precipitado levá-lo à Copa do Mundo deste ano, mas começo a mudar de ideia. Jogadores especiais merecem tratamento especial. E não custaria cortar um Kleberson, um Ramires, um Júlio Batista, um Felipe Mello, um lateral-esquerdo reserva, já que nem titular absoluto a seleção da CBF tem. Cortar qualquer um desses atletas, bons, mas comuns.

Assim abririam espaço para um jogador especial. Ou melhor ainda, cortar dois e levar Neymar e Paulo Henrique Ganso, pois ambos são muito raros. O meia do Santos tem características inexistentes no elenco habitualmete convocado por Dunga. E é jovem mas de postura madura, com muita personalidade.

"Ah, mais eles não foram testados..." E daí? Na Copa devem jogar os melhores, ora. E esses rapazes que brilham no Santos são superiores a vários dos operários fiéis ao dunguismo cujos passaportes estão carimbados para a África do Sul. Você que lê e discorda, apenas pare e pense no desperdício que está prestes a acontecer.

Em 1978, César Luís Menotti não chamou Maradona, então com 17 anos, para ser campeão do mundo. O título foi arrancado à força e os Deuses do Futebol parecem tê-lo castigado pela heresia, pois o técnico vencedor daquela Copa pouco fez depois dela, seguiu em frente sustentado pelo nome, pela grife na qual se tornou, nada mais.

Neymar e Ganso dificilmente serão gênios como o argentino. Mas é tão improvável quanto que passem pelo futebol discretamente como alguns dos eleitos de Dunga. Mas a seleção da CBF vive uma Era na qual dedicação vale mais do que talento. Como se fosse mais fácil fazer alguém sem talento jogar bem do que transformar craques em jogadores dedicados.

Veja em vídeo, CLICANDO AQUI, o comentário feito pelo mesmo Mauro Cezar, em transmissão da ESPN do jogo do Santos pela Copa do Brasil.

O que você acha sobre Neymar? Levaria o garoto abusado à África?

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