segunda-feira, 22 de março de 2010

PERSONAGEM DO DOMINGO: SAULO. QUEM?

Amigos, vendo e revendo os melhores lances da goleada - mais uma - do Santos por 9 a 1 sobre o Ituano, no Pacaembu, percebi que o personagem deste domingo futebolístico foi o goleiro do Ituano, o pobre coitado do Saulo. Segundo complexos calculos matemáticos algoritmicos, 63,1% das pessoas no país somente ficaram sabendo que o Ituano tomou nove gols do Santos, sem vê-los nem em videotape, e concluiram que, se o time do interior tinha um goleiro em campo, este não chegou a conferir a cor da pelota. Outros 33,8% assistiram "somente" aos gols do jogo, os 10, e concluiram que o goleiro do Ituano é um verdadeiro frangueiro ao vê-lo aceitando, por debaixo de si, um chute fácil do santista Zé Eduardo e, como se não lhe bastassem as penas, ficou ainda com um cartão vermelho por ter feito o pênalti que legou ao peixe o nono tento.

Então 96,9% do Brasil concluem uníssonos: o Santos é demais, mas o goleiro do Ituano é um trapalhão.

Porém só 3,1% dos brasileiros conhece a verdade. O fato é que Saulo fazia ontem uma grande partida, com pelo menos 3 defesas milagrosas no primeiro tempo. Fosse o Santos um time ordinário, comum, desses que param de jogar depois do terceiro gol, Saulo receberia um motorádio após o match (para os mais novos, este foi por muito tempo um símbolo do melhor jogador em campo).

Repito: o primeiro tempo terminou 4 a 1, graças a Saulo. Sem ele é possível que os 9 tivessem sido anotados ainda na primeira etapa. Aí vem o segundo tempo e os meninos da vila resolvem começar tudo de novo como se estivesse zero a zero, sem Robinho e sem Neymar mas com P.H. Ganso, o PhD em futebol.
Ganso é gênio. Exagero? Quantas vezes viu alguém ganhar por 9? E por 10? E as duas coisas em uma semana?!?

Pobre Saulo. Um bom goleiro, em uma noite tecnicamente inspirada, e vítima de uma esquadra implacavelmente irresponsável. Onde já se viu voltar para o segundo tempo daquele jeito? Ganhando por 4 a 1, pega leve, diminui, se poupe para o próximo jogo difícil contra o bom Botafogo de Ribeirão. Mas a irresponsabilidade da adolescência é ininfreável. Para todo jovem o mundo acaba amanhã. Por mais que Saulo se esforçasse, eles queriam mais e mais, e no final ainda mais. Não há homem que aguente tanta teimosia. Saulo foi se irritando, com o time adversário e também com o seu próprio, que corria em vão atrás de uma bola que parecia decidida em seu destino, jogada após jogada, drible após drible.

Comemoração "Estátua da Liberdade", alusão ao amistoso feito em Nova Yorque.

E entra bola de cabeça, de pé direito, de pé esquerdo, de perto, de longe, de falta, de tudo quanto é jeito. O goleiro sente uma humilhação profunda, uma impotência quase sexual. Um bando de moleques acaba de roubar-lhe a hombridade, impunemente, como que brincando de expô-lo ao ridículo. A técnica e a concentração do goleiro, à esta altura, foram pro espaço. E depois de outra tabelinha estonteante com P.H. Ganso, Zé Eduardo arrisca de fora e o chute sai mascado, fraco e rasteiro, no meio do gol. Mas ali debaixo dos paus não há mais o goleiro do primeiro tempo. No primeiro tempo havia ali, usando as luvas ituanas, um homem forte e confiante pronto para desenvolver o seu trabalho de forma precisa, como o fez. Mas agora já não o havia mais. O que havia agora era um ser desnudo, abalado, extorquido de toda sua segurança e virilidade. Se o futebol já é um jogo mental, de estado de espírito, o ofício do guarda redes é o mais psicológico de todos. Tanto é assim que 10 entre 10 grandes goleiros ostentam uma impáfia ímpar como o numeral que carregam às costas. E enquanto assistia a viagem da bola despretensiosa de Zé Eduardo em sua direção, o arqueiro Saulo era um poço de humildade, quase uma madre Teresa. Seu olhar expressava o susto de uma freira em um prostíbulo. A impáfia, o peito estufado que um grande goleiro deve sempre portar, ficaram no vestiário. E com as mãos leves e o movimento suave de um humilde pedinte, Saulo permitiu que a bola transpassasse-lhe os braços com uma fluência de manteiga, e terminasse sua lenta trajetória além da linha fatal e sem mal chegar às redes. Saulo só queria ser invisível, e o foi, até para a bola. Apequenou-se tanto o pobre o homem que sumiu. E depois ainda, no final, viu-se em completo desespero ao fazer pênalti e ser expulso, para completar a sua degradante noite.

Um último exemplo da irresponsabilidade santista, e de como jogam sempre como se fosse o último jogo de suas vidas: Wesley foi expulso ao receber o segundo amarelo, em lance duro no meio de campo, com o placar já em 9 a 1. O ala/meia ficará de fora do importante encontro contra o Botafogo, confronto direto por vaga no G4. Também não precisa tanto.

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