sexta-feira, 31 de julho de 2009

O ÚLTIMO DOS MOICANOS


Amigos, Andrade é mesmo uma pessoa diferente. O técnico do Flamengo é desses exemplares humanos que nos fazem acreditar que o mundo pode ser melhor. Outro dia mesmo, depois de uma grande virada sobre o Santos na Vila, o homem dedicou a vitória ao seu falecido companheiro Zé Carlos, ex-goleiro rubro-negro. Ainda em campo ele foi às lágrimas, usando o microfone da Globo em rede nacional para exaltar não a si próprio nem seus méritos, mas ao grupo de jogadores e ao citado ex-colega.

Se já não bastasse, após a grande vitória novamente de virada sobre o então líder do brasileirão Atlético MG, vem à sala de entrevistas o grande nome da noite: Andrade. Recapitulemos. Andrade foi um dos maiores ídolos da história da maior torcida do país que tem o maior futebol do mundo. Não por acaso, o brilhante ex-volante possui seu rosto estampado em uma enorme bandeira da "magnética" rubro-negra, que todo jogo é desfraldada como um símbolo do Maracanã. Este senhor que adentra o recinto das coletivas de imprensa carrega na bagagem três títulos nacionais, um sul-americano e um mundial, entre outros, e honrou a tradição da camisa amarela mais estrelada do planeta quando a vestiu. Este indivíduo, amigos, traz em seu nome "só tudo isso". Este homem negro de olhar sereno e rosto pacato que se senta agora atrás dos microfones e à frente das câmeras de todo o país é Andrade. Mas cadê a pompa? Cadê a circunstância? Não vejo o nariz "alti-agudo" que o passado lhe pressupõe, nem o peito estufado demais, nem o ar de professor doutor em seu discurso. Aliás não faz discurso, se reserva a responder de forma aberta e sincera às perguntas formuladas. Responde a tudo, ouve as questões até o final, e depois de satisfazer a ânsia do país pelas palavras de quem foi o nome da noite ainda agradece aos repórteres, com uma humildade que comove. Mas antes, quando ainda ouvia e respondia às questões dos repórteres, Andrade foi indagado sobre a incrível melhora que o time apresentou sob seu comando comparado à época do comando de Cuca. Pronto: está dada a deixa para que surja, enfim, uma tromba de auto-glória. Qualquer um de nós propalaria naquele momento, sem que fosse nenhum absurdo, uma definitivo atestado de competência, respondendo à pergunta pela via da rigorosa realidade de que ele é sim muito responsável pela decolagem do time, no mínimo no campo psicológico. Mas não. Andrade tem uma singular capacidade de não se colocar no centro do universo, e responde, sem sorrisinho de canto de boca - que revela muitas vezes a falsa modéstia -, que o Cuca teve de enfrentar problemas como lesões de jogadores importantes e suspensões que inviabilizavam escalar a equipe da forma mais produtiva, e que ele Andrade está tendo a "felicidade" de poder contar com todos inteiros. Cadê a pompa e a circunstância do técnico vencedor? Cadê os "ensinamentos" do professor doutor que entende tudo de futebol enquanto nós reles leigos não sabemos nada? Não, não, mil vezes não, Andrade não pode ser técnico, não tem a tal da "postura" de técnico. Cartola nenhum do futebol brasileiro vai querer um sujeito desses no comando de seu time. Afinal, Andrade contraria todo o estereótipo estabelecido pelo status quo, e é tudo o que os dirigentes normalmente não são.




Andrade é mesmo uma pessoa diferente. É simples, tem o coração puro e aberto como o de um menino, um boleiro menino brasileiro. Andrade é integro, é generoso e tem tudo isso ao mesmo tempo em que tem uma das histórias mais brilhantes do nosso futebol. Andrade é quase bom demais pra ser verdade, por isso temo por seu futuro nesta carreira, vítima de um possível preconceito às avessas, comum em nosso país infelizmente. Tenho um conhecido, um dentista muito inteligente e digno, que tentou se eleger vereador em sua cidade. Pois ele não só não se elegeu como manchou a imagem de seu consultório, pois afinal se virou político boa coisa não deve ser, diziam os seus co-munícipes.

Andrade é mesmo uma pessoa diferente. E espalhem esse pensamento: precisamos cada dia mais disto.

terça-feira, 28 de julho de 2009

VALORIZAÇÃO DO ESPETÁCULO NO FUTEBOL

Fico sempre pensando no que precisa acontecer para que o futebol brasileiro comece a ser tratado por quem o promove como um verdadeiro espetátuculo.

Qual é o objetivo do futebol, mercadologicamente falando? É um mercado de trabalho onde o foco do business é vender jogadores ou promover eventos espetaculares?

A diferença básica entre o mercado europeu e o brasileiro não é a quantidade de dinheiro envolvido, mas sim o foco do negócio. Eles vêem o futebol como um mercado de eventos, de promoção de espetáculo. Nossos dirigentes brasucas vêem o futebol como uma oportunidade de fornecer suprimentos para este outro mercado, o da Europa. Portanto, como já sabemos, mercado do espetáculo só há o da Europa, enquanto nós somos um fornecedor deste mercado.

Antigamente, quando o Brasil ainda não era um país industrializado, ocorria o mesmo com outros mercados, como o de produtos agrícolas, por exemplo. Éramos somente fornecedores de matéria prima, que era transformada em um bem acabado produto no primeiro mundo. Só a elite brasileira tinha acesso a esses produtos finais, vindos de fora. Essa elite começou então a achar que aqueles produtos refinados que eles consumiam poderiam ser apreciados também pela população em geral, desde que produzidos aqui. Só que você, amigo leitor, acha que os produtores de matéria prima estavam preocupados com isso? Ganhavam muito dinheiro vendendo bananas pra Europa, qual é o interesse em vender bananas para os novos industriais tupiniquins? Pode até vender, pagando bem que mal tem? Mas paga melhor que a indústria européia? Não, então desculpe mas continuarei vendendo todas as bananas para os europeus. Se quiserem um produto final refinado, acompanhe as trasmissões da Europa!

E como isso mudou? Quando algum membro desta elite consumidora, os tais novos industriais, resolveram mobilizar-se para melhorar seu poder de fogo e dobrar os produtores através de sua força política e econômica. Trazendo para o século 21 e para o futebol, quem tem interesse em se tornar esta “nova indústria”, ou seja, os que fabricam o produto final refinado para consumo que seriam os jogos e campeonatos? A CBF é que não seria mesmo, já que ela nada mais é do que o despachante aduaneiro que presta serviços e ganha dinheiro com as exportações. Os clubes muito menos, pois são os produtores/fornecedores que estão acomodados com os ganhos da exportação. Só consigo pensar na TV, e talvez não a Globo, que é muito fechada com esse grupo e os esquemas atuais. Mas pode muito bem virar o jogo, pois ganharia muito mais dinheiro se transformasse o nosso celeiro em hipódromo.

Mas para isso a Globo precisa interferir no êxodo. Por isso acho que a criação de uma Liga seria um passo primordial. A Liga faria a gestão do espetáculo, fazendo o meio-de-campo entre TV e clubes, com o foco voltado para a qualidade do espetáculo. Algum cabecinha pequena dirá “Pra quê? Se os clubes ganham milhões vendendo jogador, e precisam desta renda para fechar seus balanços”. Será que preciso dizer que os clubes europeus, que movimentam MUITO MAIS DINHEIRO que os nossos, não ganham nada vendendo jogadores mas sim PROMOVENDO O ESPETÁCULO. E para eles isso é bem mais difícil, pois precisam ir buscar matéria prima fora, quando nós poderíamos ter o mesmo resultado somente com o que temos aqui.

Um bom exemplo de como a Globo trata mal o seu produto foi a não transmissão da final da Libertadores em rede nacional. Não percebem que, tão ou mais importante que a paixão clubística, é a valorização dos torneios para que virem símbolos, para que virem “objeto de desejo” das torcidas. Isso é criar um produto, agregar valor, gerar demanda. Neste último domingo, Palmeiras e Corinthians entravam em campo lado a lado em um belíssimo ritual, debaixo de um show de cores das arquibancadas que formavam um mosaico de cores maravilhoso. A torcida palmeirense formou com painéis as letras S.E.P., iniciais do clube, sobre as cores da bandeira da Itália, origem palestrina. Enquanto tudo isso ocorria no estádio, a tela da Globo ainda mostrava Fausto Silva. Na final da Champions League européia, Andrea Bocelli cantou lindamente a música tema do filme Gladiador enquanto os “gladiadores” modernos entravam em campo no coliseu de Roma, ou melhor, no estádio Olímpico de Roma. Mal me lembro do jogo, mas nunca esquecerei aquele espetáculo inicial.

Isto é valorização do espetáculo, fazer dinheiro através do evento.

Matéria prima temos de sobra. Público consumidor então, nem se fale. O que falta então para sermos a NBA do futebol? Uma entidade que pense só no espetáculo, sem Euricos nem Teixeiras: A LIGA!

ANDRES SANCHES: “PRA ELES O QUE VALE É O DINHEIRO”

Em sua participação ontem no Arena Sportv, o presidente do corinthians Andres Sanches afirmou que para os jogadores o que vale é o dinheiro. O apresentador Cleber Machado ainda insistiu, perguntado se a vontado do jogador em ficar no clube caso esteja feliz no emprego não conta, e Andres respondeu: “Faz uma proposta maior do que ele ganha e vai ver se ele não fica mais feliz ainda”.

A afirmação, apesar de parecer óbvia nos dias atuais, deixou os comentaristas participantes do programa um tanto irriquietos, especialmente Cleber Machado e o jornalista Vagner Villaron, a quem Andres respondeu exemplificando: “Você mesmo, trabalha aqui na Glogo, está feliz, se vier uma proposta melhor, pra ganhar mais dinheiro, você não vai?”, encerrando a discussão. Villaron ficou com cara de interrogação, mas se absteve ao não propalar sua dúvida sobre a questão. Assistindo, fiquei com a impressão de estar lendo os seus pensamentos. A cara de interrogação me dizia: “… depende! Não é só dinheiro que move o profissional, tem que pesar condições de trabalho, visibilidade, objetivos profissionais, muitas coisas…”. Claro que estou especulando, não posso adentrar o cérebro de ninguém, mas pelas caras dava pra sentir isso, que por sinal é o mesmo que eu sentia aqui, assintindo.

Será possível que a coisa seja assim mesmo? Quero dizer, que é assim é, já que falou alguém que está no núcleo do processo e conhece cada conversa, cada posição tomada em todos os detalhes das negociações. É senhores, é triste mas é verdade, o cara ouve que vai ganhar mais, então pronto.

E essa cegueira é coletiva, pois nem a imprensa consegue questionar muito como vimos no citado programa, excelente programa por sinal. Todos estão programados a aceitar sem questionar essa afirmação: “Ele vai para fazer sua independência financeira!” Papo furado. Se fosse inteligente (ou pelo menos bem acessorado) André Santos nunca deixaria a possibilidade de disputar a Libertadores da América, no ano do centenário, meses antes da Copa do Mundo que é o seu objetivo maior no momento, ou que deveria ser. Quer consagração maior do que ir a uma copa do mundo? E se você só pensa em dinheiro, vai aqui o argumento pecuniário: tanto a Libertadores como a Copa do Mundo representam valorização certa, seja qual for o resultado. Um milhonário desses do novo dinheiro no futebol europeu lê a ficha, e “voilá”.

Outra frase que sempre aparece de mãos dadas com a da independência financeira é a de que “muita gente depende de mim”, referindo-se a familiares e talvez amigos, empresário, barbeiro, etc. Muito interessante ver um jovem que mal criou barba, pois mesmo os mais velhos que saem não têm mais de 25, 26 anos, pensando mais no barbeiro ou na mãe do que em si próprio. Sejamos honestos, não é certo, profissionalmente falando, fazer as escolhas pelos outros e não por si mesmo, já que quem vai entrar em campo e jogar é ele, não o barbeiro e muito menos a mãe. Amanhã a carreira mingua e é capaz do moço, nem que seja só muito intimamente, culpar outros que não a si próprio pelas frustrações. E tem outra, um jogador como o André Santos, e mesmo a maioria dos demais, ^tem condições de pedir um novo contrato ao seu time para ganhar um bom salário, quantia da qual barbeiro nenhum teria coragem de reclamar. Será que não dá pra ajeitar a vida de uma família humilde inteira ganhando 45 mil por mês?! Não, o cara precisa ir se esconder na Turquia e ganhar 200 mil. E não me interprete mal, eu também não rasgo dinheiro, quem não gostaria de ganhar 200 paus? Mas não seria melhor esperar 1 ano e meio e ganhar 150 só que na Espanha, na Itália ou na Inglaterra?

Ah, mas e se o cara for mal no brasileirão, mal na Libertadores, o timão não passa da primeira fase e o cara não for à Copa? É, nesse caso, possível mas improvável (pois se está bem agora nada indica que a coisa irá degringolar tanto), ele vai ter que “se virar” com 45 paus por mês.