
Amigos, Andrade é mesmo uma pessoa diferente. O técnico do Flamengo é desses exemplares humanos que nos fazem acreditar que o mundo pode ser melhor. Outro dia mesmo, depois de uma grande virada sobre o Santos na Vila, o homem dedicou a vitória ao seu falecido companheiro Zé Carlos, ex-goleiro rubro-negro. Ainda em campo ele foi às lágrimas, usando o microfone da Globo em rede nacional para exaltar não a si próprio nem seus méritos, mas ao grupo de jogadores e ao citado ex-colega.
Se já não bastasse, após a grande vitória novamente de virada sobre o então líder do brasileirão Atlético MG, vem à sala de entrevistas o grande nome da noite: Andrade. Recapitulemos. Andrade foi um dos maiores ídolos da história da maior torcida do país que tem o maior futebol do mundo. Não por acaso, o brilhante ex-volante possui seu rosto estampado em uma enorme bandeira da "magnética" rubro-negra, que todo jogo é desfraldada como um símbolo do Maracanã. Este senhor que adentra o recinto das coletivas de imprensa carrega na bagagem três títulos nacionais, um sul-americano e um mundial, entre outros, e honrou a tradição da camisa amarela mais estrelada do planeta quando a vestiu. Este indivíduo, amigos, traz em seu nome "só tudo isso". Este homem negro de olhar sereno e rosto pacato que se senta agora atrás dos microfones e à frente das câmeras de todo o país é Andrade. Mas cadê a pompa? Cadê a circunstância? Não vejo o nariz "alti-agudo" que o passado lhe pressupõe, nem o peito estufado demais, nem o ar de professor doutor em seu discurso. Aliás não faz discurso, se reserva a responder de forma aberta e sincera às perguntas formuladas. Responde a tudo, ouve as questões até o final, e depois de satisfazer a ânsia do país pelas palavras de quem foi o nome da noite ainda agradece aos repórteres, com uma humildade que comove. Mas antes, quando ainda ouvia e respondia às questões dos repórteres, Andrade foi indagado sobre a incrível melhora que o time apresentou sob seu comando comparado à época do comando de Cuca. Pronto: está dada a deixa para que surja, enfim, uma tromba de auto-glória. Qualquer um de nós propalaria naquele momento, sem que fosse nenhum absurdo, uma definitivo atestado de competência, respondendo à pergunta pela via da rigorosa realidade de que ele é sim muito responsável pela decolagem do time, no mínimo no campo psicológico. Mas não. Andrade tem uma singular capacidade de não se colocar no centro do universo, e responde, sem sorrisinho de canto de boca - que revela muitas vezes a falsa modéstia -, que o Cuca teve de enfrentar problemas como lesões de jogadores importantes e suspensões que inviabilizavam escalar a equipe da forma mais produtiva, e que ele Andrade está tendo a "felicidade" de poder contar com todos inteiros. Cadê a pompa e a circunstância do técnico vencedor? Cadê os "ensinamentos" do professor doutor que entende tudo de futebol enquanto nós reles leigos não sabemos nada? Não, não, mil vezes não, Andrade não pode ser técnico, não tem a tal da "postura" de técnico. Cartola nenhum do futebol brasileiro vai querer um sujeito desses no comando de seu time. Afinal, Andrade contraria todo o estereótipo estabelecido pelo status quo, e é tudo o que os dirigentes normalmente não são.
Andrade é mesmo uma pessoa diferente. É simples, tem o coração puro e aberto como o de um menino, um boleiro menino brasileiro. Andrade é integro, é generoso e tem tudo isso ao mesmo tempo em que tem uma das histórias mais brilhantes do nosso futebol. Andrade é quase bom demais pra ser verdade, por isso temo por seu futuro nesta carreira, vítima de um possível preconceito às avessas, comum em nosso país infelizmente. Tenho um conhecido, um dentista muito inteligente e digno, que tentou se eleger vereador em sua cidade. Pois ele não só não se elegeu como manchou a imagem de seu consultório, pois afinal se virou político boa coisa não deve ser, diziam os seus co-munícipes.
Andrade é mesmo uma pessoa diferente. E espalhem esse pensamento: precisamos cada dia mais disto.

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