
Toda a parte meridional do mundo foi colonizada por visitantes vindos do norte. Não que aqui não houvesse vida inteligente, havia somente sistemas mais frágeis e que sucumbiram aos milenares sistemas impositivos europeus e asiáticos. Mas inevitavelmente estes visitantes também sentiam, tão longe de casa, uma desvinculação de seus dogmas morais, já que suas autoridades estavam constituídas a milhares de quilômetros de distancia. E assim nasceram as nações abaixo do Equador, tais como o Brasil, a África do Sul, entre tantos outros países que, séculos depois, ainda buscam moldar um povo e um conjunto de códigos morais e éticos, mesmo que tenham sido construídos sobre os alicerces da corrupção e do individualismo.
Dada a contextualização histórica, chegamos ao século 21. O Brasil é, dentro de campo, a maior potência mundial no esporte que é o maior traço da cultura globalizada. Um E.T. que chegasse hoje em nosso planeta para estudar o comportamento humano certamente consideraria o Brasil como parte importante da cultura terráquea. Reportaria assim aos demais marcianos: “No processo de unificação e intercâmbio das culturas, dado no vigésimo século contado após a execução do líder Cristo, figuras como Gandhi, Kennedy e Pelé se destacaram na sociologia, política e cultura de massas, respectivamente. Mas Ghandi e Kennedy não ganharam nenhuma Copa, por isso o terceiro é tratado pelos terráqueos como Rei.”
Então, amigos, que faça-se a Copa no Brasil!!! Só poderia pensar assim se eu fosse o alienado alien, ou algum europeu louco para levar um evento lucrativo desses para quilômetros de distância das autoridades constituídas. Duas copas seguidas, África e Brasil, podem enriquecer demais um cartola europeu sem escrúpulos. Trata-se do novo mercantilismo, onde caravelas da Air France vêem aproveitar-se da ganância de alguns líderes nativos para extorquir riquezas de suas terras, e voltarem para casa sem culpa alguma já que “não há pecado abaixo do Equador”. Fariam o mesmo na Copa da França? Ou da Alemanha? Até fariam, mas não conseguem. O sistema lá é mais rígido, e a culpa seria maior também. Afinal que culpa tenho eu, dirigente europeu, se os cartolas brasileiros estão implorando pra que eu vá lá e ganhe junto com eles rios de dinheiro? Vou mostrar que sou generoso, e que não penso só na França ou na Alemanha: levarei a alegria da Copa às nações subdesenvolvidas também, como prova do meu bom coração e do meu senso de cidadão globalizado. E se tiver uma comissãozinha aqui outra acolá eu aceito, obrigado. Assim como na época das caravelas (as de madeira), somos nós mesmo que estamos oferecendo nossas riquezas para extorsão, ou nossos líderes, já que ficam com um percentual pomposo deste roubo.

Estamos ouvindo todos os dias informações das mais variadas sobre as verbas e recursos para a Copa 2014. Orçamentos milionários, a maioria até bilionários, em meio a devaneios arquitetônicos e logísticos. Para se ter uma idéia, Manaus pretende gastar 6 bilhões de reais! Para realizar dois ou três jogos de futebol!!! Recife vai construir a “cidade da Copa”, onde não só será erguido um novíssimo estádio como toda uma estrutura hoteleira, bancária, gastronômica e faraônica. Cidade da Copa. Pois eu pergunto: acaba-se a copa e faz-se o quê com a tal cidade?! Nos próximos dias de agosto as cidades terão de mostrar à FIFA os projetos de viabilização financeira, sob pena de desclassificação no caso de não demonstrar que o projeto tem sustentabilidade econômica. Se a FIFA levasse mesmo isso a sério, desclassificado mesmo estaria o Brasil, pois não há um gringo que me convença que existe meio de se obter retorno com um investimento que beira os 50 bilhões de reais. E quase tudo dinheiro público, não se iluda você com a palavrinha mágica “PPP” (Parceria Público-Privada). Acredite em mim, a palavra privada aqui faz referência somente à peça de louça para onde irá todo esse nosso dinheiro.
Outra coisa que incomoda é uma realidade que está estampada no próprio site do ministério do esporte do Brasil (http://portal.esporte.gov.br/). O negócio mesmo não é ser sede, é ser candidato a sede. O portal do governo dá total destaque à candidatura olímpica Rio 2016. Está na capa, no menu em destaque, na popup, domina o verbo. Sobre a Copa 2014, evento mais importante da história do esporte no país? NENHUMA LINHA! Nada, nem fuçando muito. Não toca no assunto, afinal o assunto já acabou, já ganhamos mesmo! Incrível, nem link pro tal do C.O.L. tem, que é o comitê organizador. Aliás o leitor bem que poderia me ajudar, pois eu tentei achar o site do comitê organizador e não consegui. É claro que existe o site, afinal a transparência é a marca dos que "cuidam" do nosso futebol. Com estes orçamentos envolvendo Bilhões o comitê deve ter um site escrito em, no mínimo, 25 linguas.
Mas os que me afligem não são os bilhões de reais, mas os milhões que ficam depois da vírgula. Salvador quer R$ 3,3 bilhões a mais do que estava previsto. Se daqui 1 ano liberarem R$ 3,6 bilhões, “só” R$0,6 a mais, nós não vamos nem lembrar, e portanto nem notar. E estamos falando aqui de uma diferença de R$ 300 milhões, dinheiro de 10 megasenas acumuladas! Quem vai atentar para o que vem depois da vírgula? Receio que somente os novos milionários que receberem estas “pequenas diferenças”...
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